sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Evolucionar
Já fui monge
Fui guerreiro,
Mago, camponês, sacerdote,
Imperador, mãe, alquimista,
Bailarino e artista...
Já voei com dragões
E unicórnios alados
Hospedei colibri de fogo
Ganhei farol, espada,
Chaves, joias, pedra.
Fui a templos e palácios...
Do Universo, missão.
A incumbência era uma só
E segue sendo neste pó:
Aprender, desaprender e treinar.
Mais que receber, dar.
Carlos Almeida
Seiva
Vejo a árvore
Muitos galhos
Vejo o galho
Muitas folhas
Vejo a folha
Muitos veios
É uma, são muitos
Uma unidade
A mesma seiva
Que corre na raiz
Corre no caule
Corre em cada galho
Corre em cada folha
Corre em cada veio
E ainda em ciclos
Floresce
Frutifica
Vejo a Terra
Cinco continentes
Muitos países
Vejo um país
Muitas culturas
É uma, são muitos, milhões
A mesma seiva
Não chega a todos
Há galhos que não florescem
Há flores que não frutificam
Humanidade?
Carlos Almeida
quarta-feira, 1 de maio de 2013
S.O/U.S.
o que é que
pode ser encontrado
no setor de
'rachados e pendidos'
de uma escola de
'corte e sutura'?
Carlos Almeida
terça-feira, 3 de abril de 2012
Filosofia de cozinha
A vida é como uma pia de cozinha:
De repente, quando você menos espera,
Está uma bagunça só e você se pergunta
“Como fui deixar sujar tanta coisa?”
Olhando para o caos, o caos olha para você
Que pensa ser impossível dar conta...
Aí você se questiona por onde começar.
Trata primeiro de por a mão na sujeira
Começando por juntar a peças semelhantes
Tenta organizar para ter espaço.
Trata de lavar os mais delicados,
Menos engordurados,
Aí olha para o escorredor e pensa:
Ih! Não vai caber...
Mas segue lavando, tirando o que é lixo.
Quando se dá conta já foi quase tudo,
Mas ficaram os problemas maiores,
Aqueles que tem crostas endurecidas
Pára, toma fôlego e enfrenta.
Alguns precisam de ajuda do fogo,
Água quente e palha de aço nesses casos.
Vai organizando, equilibrando e,
Como em um quebra cabeças,
Vê tudo lavado e cabendo
Pronto para secar e guardar.
A maior semelhança com a vida
É que geralmente se coloca ordem
Para recomeçar o caos.Carlos Almeida
segunda-feira, 12 de março de 2012
Nota em contratempo
Se a harmonia em que vibramos
Às vezes descompassa,
É que este movimento sincopado
Faz parte dos adornos
De uma grandeza rítmica.
...Ora, se até as dissonâncias
Tem suas escalas abrilhantando
As sinfonias, também meu
Desajeitado, porém enorme
Amor, poderá ser tocante, e
Ecoará no teu coração.
Assim, eternamente, o
Mais melodioso dos sons será
Ouvido da boca do amor a cantar
Teu nome.
Carlos Almeida
Indefinível
Toda poesia
Toda canção
Toda arte
O que já se fez de bom
Ainda não é o bastante
Nada é belo que seja mais
Nada é romântico suficiente
Não há o que se diga ou se escreva
Que não seja mera sombra
Do que sinto por você!
Toda canção
Toda arte
O que já se fez de bom
Ainda não é o bastante
Nada é belo que seja mais
Nada é romântico suficiente
Não há o que se diga ou se escreva
Que não seja mera sombra
Do que sinto por você!
Carlos Almeida
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Cavaleiro da vitória
Pare tudo!
Por um minuto
Esquece agonias
Lance o olhar
Para o céu
Pela janela
Olhe a lança do Guerreiro
De armadura e corcel
Veja o braço que a empunha
Olhe a fera que geme
Veja o escudo de prata
Que brilha
Nesta noite cheia!
... Fique em paz.
Por um minuto
Esquece agonias
Lance o olhar
Para o céu
Pela janela
Olhe a lança do Guerreiro
De armadura e corcel
Veja o braço que a empunha
Olhe a fera que geme
Veja o escudo de prata
Que brilha
Nesta noite cheia!
... Fique em paz.
Carlos Almeida
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Arte viva
Quanto à arte indígena, que na maioria dos compêndios aparece como manifestação menor, como arte de “povos primitivos”, mereceria maior destaque pela sua riqueza, sua vitalidade, sua permanência.
As análises realizadas nessa área parecem-me um pouco deficientes, com registros pobres citando “vasos marajoaras” ou “arte plumária” e apenas com o olhar de estranhamento e admiração do homem branco como ao desembarcar das caravelas. A Arte indígena, especialmente por se manter viva e ter sua evolução própria, merece estudo particular, quem sabe com ponderações sobre ser a arte de um povo em sua própria terra recebendo influências exógenas, mas acima de tudo como Arte Maior e não apenas como capítulo introdutório de menor interesse.
Fica aqui, portanto, o desafio para as autoridades no assunto e o apelo para que voltemos os nossos olhares a essas manifestações como se olhássemos para um espelho da alma da pintura no Brasil.
Carlos Almeida
Primeiras pinceladas
A História da Pintura no Brasil costuma ser introduzida com a Arte rupestre e a Arte indígena [sobre esta última dedicarei maior espaço na próxima postagem]. Para uma análise mais consistente da Arte rupestre (pré-histórica) é necessário um mergulho na ciência arqueológica, especialmente para buscar a distinção entre manifestações que poderiam ser consideradas “arte pura” e o que esteve ligado a outras manifestações (magia, uma forma de escrita incipiente ou mesmo artesanato).
Isso ainda é muito discutido na própria Arqueologia e entre historiadores da Arte brasileira. Entendo que como qualquer manifestação pictórica, em si, deve ser considerada como manifestação artística, podemos, sim, ver nessa arte remota um elemento germinal. Entretanto o estudo delas, de maneira mais aprofundada, com análises e descrições mereceria um expediente interdisciplinar para promover sua real importância: História (incluindo Arqueologia, Paleontologia), Geografia, Geologia, Artes Plásticas e Antropologia.
[continua...]
Isso ainda é muito discutido na própria Arqueologia e entre historiadores da Arte brasileira. Entendo que como qualquer manifestação pictórica, em si, deve ser considerada como manifestação artística, podemos, sim, ver nessa arte remota um elemento germinal. Entretanto o estudo delas, de maneira mais aprofundada, com análises e descrições mereceria um expediente interdisciplinar para promover sua real importância: História (incluindo Arqueologia, Paleontologia), Geografia, Geologia, Artes Plásticas e Antropologia.
[continua...]
Carlos Almeida
Proposta
Busco nesta postagem e em algumas seguintes, baseado em coleta de material já existente, mas com análise própria, discorrer sobre manifestações da Arte, com recorte e foco para o Brasil. Uso a “picada já aberta” por estudiosos e acadêmicos para desbravar, na imensa produção cultural brasileira, o que traduz o belo com técnica e emoção. Muitas vezes a Pintura esteve ligada ao poder e mesmo a seu serviço.
Em texto sobre a “Democratização da Cultura”, Daniele Canedo (da UFBA) fala da importância da participação popular quando o assunto é “encarar a cultura e o povo como pólos distintos e afastados”:
“As decisões sobre as políticas culturais são centralizadas nos governos e instituições, constituindo uma esfera pública estatal. A cultura é definida pela burocracia das secretarias de cultura, sem passar pelo crivo do público a que se destina. Levando em consideração apenas os ‘templos culturais’ (FARIA, 2003,p. 37), como teatros e galerias, como os lugares mais importantes para a realização da cultura, os defensores dessa política esquecem as ruas, as casas, as escolas e os espaços informais de sociabilidade.” [grifo nosso]
[continua...]
Carlos Almeida
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
O direito a nudez
[atualizado em 21/12/11]
A cultura não serviria à civilização se não tentasse extirpar do homo sapiens certos aspectos que nele são naturais.
A cultura não serviria à civilização se não tentasse extirpar do homo sapiens certos aspectos que nele são naturais.
Imagine que um dia você acorde despido de “pudor” e roupas e que a consciência da vida convencional não cobre que se cubra e, naturalmente, acima de qualquer bem ou qualquer mal, você vá comprar o pão de cada dia assim... naturalmente nu. Seria logo preso ou internado como louco ou excomungado... ou tudo isso de uma vez.
Há muito tempo atrás um hominídeo – talvez o elo perdido, um adão qualquer – ao associar seus medos à sexualidade inventou a impureza, a moral; passou a esconder o que era natural para cobrir a impureza imaginada, fabricada. As folhas ou peles – que antes usava para proteger seu corpo – passou a ter função de ocultar sua "intimidade", passou a integrar um certo pudor, contudo, não fizeram desaparecer o equívoco de seus medos, mas apenas escondeu a beleza do que lhe tinha sido original. Sempre que olhasse um semelhante, de geração em geração, o homem não deixaria de ver no outro a impureza, agora estampada nas fibras do que passou a ser roupa.
Tão convencional quanto abstrair numerais, quanto criar signos para a linguagem, quanto teorizar e medir tempo espaço – e talvez mais antigo que tudo isso – é o ato de mudar a natureza com vestuário.
Cultura e civilização – mistérios criados pelo homem que nem o próprio homem compreende plenamente.
Considera-se hoje o ato de “cobrir as vergonhas” como algo tão natural e inquestionável que, muitas vezes, não se percebe a moral por trás disso. Não há, contudo, instinto – hoje, nem mesmo o de se proteger – que explique a necessidade de vestir as regras. Não há coerência para explicar tal fato que se esconde na experiência da vida em comum, na famigerada ordem social, no pudor público.
Para gregos e romanos a roupa era mais ornamento – além da utilidade nos combates. Entre os silvícolas a nudez é natural até que tomem contato com etnias que a considerem essencial. Assim como vícios e doenças antes desconhecidos por povos sem contato com os que se aclamam civilizados. Entre as filhas do Islã fundamentalista morre-se por descobrir a face. Já no Ocidente cristão insinuar – esconder mostrando quase tudo – é a regra. Ao sul do equador, em festas populares [carnaval, por exemplo], a ornamentação da nudez é comercializada. Em fóruns e tribunais, em quase todo o mundo, o dress code é o mesmo que os empresários (capitalistas) mostram na mídia. Jovens, periodicamente, buscam novas maneiras, modas, para fazer o mesmo sempre – vestir. Naturistas encontram-se em guetos – só lá são aceitos – onde buscam se livrar de umas amarras, criando outras... São tantas regras para se estar nu onde todos lá também estão!
Esse aspecto cultural – a roupa, ou melhor, a não-nudez – serve apenas como recorte para tantas outras hipocrisias e absurdos que o homem – ser paradoxal – se impõe em nome de uma moral civilizatória que, por mais que se tente explicar, cairia em motivações puramente metafísicas ou alheias às razões possíveis e aos instintos impossíveis.
Carlos Almeida
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Nó górdio
Oráculos e desafios...
Para destinos sombrios.
Uma espada de guerra
Não se vê fim ou começo
Esse oculto desapreço
Essa estranha bravata
Do laço que não desata
Preso está ao passado
Preso e inconquistado
Um reino como presente
Com trono como patente
E o prêmio do futuro
Ao mais valente e puro
Para destinos sombrios.
Uma espada de guerra
A resposta encerra
Cortar do tempo o liame
e desfazer o cordame
Ou continuar esperando
Seguir sempre tentando
Os deuses desenxofrar
Quem este nó decifrar
Não se vê fim ou começo
Esse oculto desapreço
Essa estranha bravata
Do laço que não desata
Preso está ao passado
Preso e inconquistado
Um reino como presente
Com trono como patente
E o prêmio do futuro
Ao mais valente e puro
Carlos Almeida
A provável lenda do nó górdio remonta ao século VIII a.C.
Conta-se que o rei da Frígia (Ásia Menor) morreu sem deixar herdeiro e que, ao ser consultado, o Oráculo anunciou que o sucessor chegaria à cidade num carro de bois. A profecia foi cumprida por um camponês, de nome Górdio, que foi coroado. Para não esquecer de seu passado humilde ele colocou a carroça, com a qual ganhou a coroa, no templo de Zeus. E a amarrou com um nó a uma coluna, nó este impossível de desatar e que por isso ficou famoso.
Górdio reinou por muito tempo e quando morreu, seu filho Midas assumiu o trono. Midas expandiu o império, porém, ao falecer não deixou herdeiros. O Oráculo foi ouvido novamente e declarou que quem desatasse o nó de Górdio dominaria toda a Ásia Menor.
Quinhentos anos se passaram sem ninguém conseguir realizar esse feito, até que em 334 a.C Alexandre, o Grande, ouviu essa lenda ao passar pela Frígia. Intrigado com a questão, foi até o templo de Zeus observar o feito de Górdio. Após muito analisar, desembainhou sua espada e cortou o nó. Lenda ou não o fato é que Alexandre se tornou senhor de toda a Ásia Menor poucos anos depois.
É daí também que deriva a expressão "cortar o nó górdio", que significa resolver um problema complexo de maneira simples e eficaz.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Deixados pelo caminho
... Acaba que o que ficou, não tem volta.
Do que no caminho se deixou fica o vazio;
Uma melancolia, uma sede, uma saudade:
Aquele plano de viagem, frustrado,
O amigo, tão terno, tão meigo, não achado,
As velas dos bolos e os presentes, passados,
A blusa que encolheu, a calça que manchou...
A professorinha, tão boa! Que é dela?
Queridos entes que outra luz viram...
Mas existe, persiste, tudo na lembrança.
Mas lembrança é daquilo que não é mais!
Resta, então, seguir criando, sentindo,
fazendo, amando outro tanto que,
no futuro, mesmo deixado no caminho,
seja recordado vivo do que se quer de novo.
Carlos Almeida
quinta-feira, 24 de março de 2011
Vontade
"Até onde conseguimos discernir,
o único propósito da existência humana
é acender uma luz na escuridão
da mera existência."
Carl Jung
De adúltero ventre nascido,
fruto de lutas vãs,
carregava triste passado
refletido em suas cãs.
Avançada a idade...
Quanta? não sabia;
perdera a conta.
Corpo arqueado,
enrugada a face,
mente confusa,
memória nublada.
O tempo,
em seu hipnótico girar,
condensara-se
no não mais ser.
quase cessara.
Visão opaca;
sombras por companhia.
Unhas, cabelos, sonhos...
nada mais crescia.
Um tedioso
tiquetaquear:
a música que ainda ouvia.
A cor rouca da voz
ao seu olhar comparado
lembrava contraste atroz:
quando sorria,
do olhar o brilho perdia.
O ruído do seu riso,
gasto, opaco, amarelecido -
como antigo retrato -
dava-lhe um nó no peito
e uma angústia sem jeito
o fazia chorar...
a lava da lágrima ardia
ao rolar na rocha fria
do rosto já sulcado,
descarnado pela erosão
de um coração sem amor.
Vida sem vida para dar
(e sem esperar receber)
sepultada nas trevas
da pressa das horas.
Mas da funda escuridão
uma utopia restava...
ainda um fôlego:
quem sabe ainda pudesse
algo ainda germinar
no corrompido solo
do quase nada que restou.
Portas já fechadas,
buscava uma janela,
uma fresta,
um raiozinho de luz...
e talvez houvesse tempo,
ocasião ou chance
para o milagre
do renascimento...
Pensava nisso
quando suspirou.
Carlos Almeida
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Halo lunar
auréola
colorida
languidamente
rutilando
luminescente,
límpida,
clara
luz...
satélite
natural
sulcando
leito
estelar
qual
alegria
vital
filtrando
delicadamente
tal
lume
astral
melífluamente
Carlos Almeida
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Abraço completo
mais abraços apenas,
sem intenções,
sem interesses,
só por abraçar,
preciso saber
onde se "vende"
um abraço...
Mas tem que vir
com todos os itens
de fábrica:
com ombro para chorar,
com ouvidos para escutar,
dom dedos para afagar,
com braços para proteger,
com sorriso para alegrar.
Tem que ser abraço completo;
sentido... demorado...
com garantia de funcionar.
Compra-se um abraço;
pago com outro em troca.
Carlos Almeida
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Eclipse
Treva dessa Terra escura
sobre a prateada Lua.
Por que festejam
a sombra?
A Terra, nessa treva,
turbou a luz
do astro-satélite
só por sentir-se maior,
azul?
Reflexo e refletor
tiveram seu coito
interrompido.
Água entre o fogo
e o espelho.
Seria só
um solstício qualquer,
só mais uma noite...
Só que, por algum tempo,
mais escura.
A Terra tenebrosa perdeu...
perdeu a beleza do brilho
em que interveio e entreviu.
Foi só sombra.
Carlos Almeida
domingo, 28 de novembro de 2010
Fim de ano inteiro
brilham as velas.
Chegou o Natal!
Algo diferente paira no ar...
Presentes e fitas,
perus e ceias,
encontro em família,
música e vinho...
São as festas!
Pinheiros brancos,
tempo de paz.
Barbas brancas,
tempo de alegria...
ou fantasia?
Algo diferente paira no ar...
Votos de muito amor,
desejo de felicidade.
Tudo embrulhado,
bonito, enfeitado
de verde e vermelho...
Há algo estranho no ar...
Ou o ano inteirinho
foi faz-de-conta
e a vida real é Natal,
Ou o que fim-de-ano traz
não passa de hipocrisia...
- Poeta desagradável!
alguém dirá!
Mas se há algo estranho,
não é o poeta não...
Bem que podia
ser Natal todo dia!
Feliz todo dia!
Carlos Almeida
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Saudação
Salve, leitores queridos
de perto e d'além mar!
Grato sou por tanto apreço.
'Té sinto que não mereço.
Mas, se de tanto que se produz,
viestes a estas letras dar conta
é porque algo a dizer-lhes tenho
e a mim o tens também.
Se me fazes crescer nestas ondas,
faço a vós algo de bem.
Salve, brazucas!
Salve, lusos!
Salve, irmão de toda Terra!
Cá o sabiá 'inda canta,
lá o fado me embala.
É prazer que encanta
poder tão perto estar
estando entre nós o mar.
Salve, lira portuguesa,
herança camoniana!
Salve, Cabo! Salve, Angola!
e todos dos outros falares.
Minh'alma é um pouco de vós,
Voss'alma em mim tem nós.
Salve, d'além mar irmão!
de perto e d'além mar!
Grato sou por tanto apreço.
'Té sinto que não mereço.
Mas, se de tanto que se produz,
viestes a estas letras dar conta
é porque algo a dizer-lhes tenho
e a mim o tens também.
Se me fazes crescer nestas ondas,
faço a vós algo de bem.
Salve, brazucas!
Salve, lusos!
Salve, irmão de toda Terra!
Cá o sabiá 'inda canta,
lá o fado me embala.
É prazer que encanta
poder tão perto estar
estando entre nós o mar.
Salve, lira portuguesa,
herança camoniana!
Salve, Cabo! Salve, Angola!
e todos dos outros falares.
Minh'alma é um pouco de vós,
Voss'alma em mim tem nós.
Grato sou por tanto apreço;
por companhia me fazeres
e a navegar teus olhares
pelos veios do coração
deste aprendiz de poeta.
Salve, d'além mar irmão!
Carlos Almeida
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